quarta-feira, junho 23

Descrição 06

Voam papéis entre os olhos e o mundo. Agarro um desses folhetos, prospecto de rua. Que anunciará? Tudo é possível: reveillons, promoções de bacalhau, cartomantes e videntes, cartas de condução, restaurantes e vídeo-clubes, roupa e andares, concentrações, festas populares, cabeleireiros, serviços de construção civil, lavagem automática, saldos, pronto-socorro e móveis, alumínios, escapes e explicações, supermercados, talhos e seitas, remédios para o reumatismo, viagens. São tristonhas evocações do chumbo que se rasgam em tamanhos variáveis, mas que raramente se agigantam. Por ser pequena a gramagem, à beira da transparência, esvoaçam como folhas de um estranho Outono. Variam as cores entre o pálido discreto e o berrante inusitado. A ilustração é rara deixando a filetes, setas e estrelas, e restante catálogo de tipos a base da arquitectura. A composição resulta de saboroso caos surrealista: as letras obedecem ao critério maior de desperdiçar toda a sobriedade, de querer experimentar tamanhos, condensados e boldes, times e futuras, o máximo de sensações em um rectângulo. Comove-me esta crença na força da palavra: A sua vida nunca mais será a mesma depois de...

2 comentários:

mnf disse...

o verbo é demiurgo. Em particular se escrito.
(achei piada ao boldes, nunca tinha visto)

jpc disse...

E demiurgo, escreve-se sempre a bolde? Ou é debalde que tentamos o verbo? Hoje desanconselha-se o itálico, para não massacrar vencidos?